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Lágrimas de Lorenzo

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† Maurício †
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default Lágrimas de Lorenzo

Mensagem por † Maurício † em Sex Dez 02, 2011 11:33 pm



Lorenzo
abraça forte o corpo de seu filho contra o peito. Envolve-o em seus
braços. Acreditando ser capaz de transmitir todo o calor e vida do seu,
ao corpo daquele pequeno ser. Lágrimas vertem de seus olhos como triste
chuva torrencial. Vertem, nos lábios frios que outrora exibiu largo e
contagiante sorriso.

Ele beija docemente a testa de seu filhote,
sua prole, sua cria. Pedindo a Deus que o devolvesse, que o tempo
parasse, retrocedesse, que aqueles lábios voltassem a sorrir. As
lembranças surgem em sua memória: O som daquele choro tão esperado,
anunciando o nascimento; a primeira palavra pronunciada, uma palavra
simples, curta, mas pronunciada como se por lábios de anjo: Pai;
lembra-se dos primeiros passos, saltitantes, trepidantes, desengonçados.
Agora, apenas um corpo inerte com os olhos cerrados, sorriso apagado,
passos e saltos que nunca mais serão dados. Uma voz silenciada com tanta
coisa ainda a dizer.

É alta madrugada. Um manto negro estrelado
cobre todo o céu. A lua reina, poderosa, triunfante, aterrorizante.
Todos os moradores do vilarejo andarilham pelas ruas escuras, de casa em
casa, de galpão em galpão. Não deixam nenhum local sem ser averiguado.
Estão esfomeados. Caçadores sanguinários em busca de sua presa, sua
caça, a caça, se esconde nesse momento dentro do celeiro em sua
propriedade, segurando o filho morto nos braços.

Lorenzo, com as
mãos trêmulas alisa os cabelos do garoto, penteando-os, queria deixá-lo
com boa aparência, fazê-lo parecer tão vivaz como outrora fora. Com a
mão esquerda ele ampara a cabeça do filho próxima a seu rosto, enquanto
com a outra mão, acaricia sua face pálida. Com as pontas dos dedos
toca-lhe os lábios procurando encontrar um último sorriso, um último
pedido, um último chamado: Pai!

Os seres moribundos vagueiam
próximos à propriedade de Lorenzo. Sentem o cheiro que emana de sua
caça. Sabem, sentem que ela está por perto, e, não tardarão a
encontrá-la. Invadem o velho casarão vasculhando em todos os cômodos.
Nada escapa aos olhos famintos destes nefastos visitantes.

Lorenzo
continua a acariciar o rosto do filho com as pontas dos dedos. Ri,
inusitadamente, ao ver a pequena cicatriz no queixo do menino, fazendo-o
memorar o primeiro tombo de bicicleta, a primeira vez em que ele se
sentiu impotente diante de um perigo envolvendo o garoto. Mas ria ao
lembrar do jeito todo atrapalhado como ele caiu em cima das roseiras de
sua esposa, e de como ela ficou furiosa, nunca soube se ela ficou tão
irritada pelas rosas, ou por Lorenzo ter soltado o filho à deriva n’uma
bicicleta bem maior que o garoto. É uma das últimas lembranças que ele
tem de sua companheira, falecida há dois anos, vitima de atropelamento.
Deixando Lorenzo viúvo com um filho pequeno para criar. Ele sabe que foi
graças ao garoto que ele resistiu à imensurável dor de perder o grande
amor de sua vida. E, também por isso, ele vê na imagem de seu filho
morto, um retrato de sua incapacidade. Não impediu que o filho caísse em
cima das roseiras, não impediu o acidente da mulher ao deixá-la sair
dirigindo sozinha naquela maldita noite chuvosa, e, não impediu que essa
noite, seu filho fosse atacado por um assassino servo das trevas.

Lorenzo
levanta a cabeça, fitando o nicho com a imagem de São Zenão de Verona,
colocado ali a pedido da esposa, para que ela pudesse orar pelo filho
todos os entardecer ao encerrar os seus afazeres diários. Lorenzo olha
aquela imagem que observa atento o seu pesar, e de joelhos, com os olhos
em prantos, aperta forte a cabeça do menino contra o peito.

-
Porquê? Maldito! Porquê? Porquê não atendeu ao pedido feito tantas vezes
por ela? Porquê não o protegeu? Não é esta a tua missão? Então, porquê
não a cumpriu? Maldito seja! Eu também tinha que vir aqui todas as
noites suplicar para que o fizesse? Era isso? Será que só ela lhe pedir
tanto não foi suficiente? Maldito! Maldito! Maldito...

Arqueado,
Lorenzo aguarda por uma resposta, em vão. Ele paira por longos segundos
com os olhos fixos, suplicantes, naquela imagem que assiste, em
silêncio, a angústia de um pai. Desiste, praguejando contra Deus e todos
os santos, voltando a atenção para seu falecido filho. Suas lágrimas
encharcaram toda face de seu pequeno. Ele enxuga a singela testa com as
mãos. Beijando-a novamente dezenas de vezes. Inquirindo a si mesmo, em
sofridos soluços, o porquê de tamanha tragédia. Seus dedos descem
tateando pouco a pouco, cada milímetro da face do garoto, como se aquela
delicada pele alva fosse um manto sagrado recobrindo seu bem mais
precioso, seu tesouro mais valioso, seu único filho.

A cada
toque, uma dor, uma despedida, um adeus. Os dedos descem, acariciando
cada centímetro quadrado da face do garoto. Tocando novamente os lábios
gélidos, o queixo, a cicatriz, o pescoço frágil. Tateou com cuidado a
causa mortis, duas micro-feridas d’onde vertiam tênues linhas de sangue .

De
ímpeto, o garoto abre os olhos vermelhos, escancarando os lábios ainda
gélidos exibindo agora enormes e pontiagudas presas. Lorenzo agarra o
garoto-vampiro pelos cabelos, evitando assim o bote em sua jugular.
Escorre, dos olhos desse pai, lágrimas vindas do intimo de seu ser.
Rapidamente, ele usa a mão que até então acariciava para empunhar a
estaca prontamente posta a seu lado. Com um golpe certeiro, e sem
titubear, Lorenzo atravessa a estaca no jovem coração do filho. Gritos
de dor ecoam uníssonos pela noite. O grito de um pai vendo-se obrigado a
tirar a vida de seu único filho. O grito de uma criança vampira, tendo
uma enorme estaca transpondo seu corpo, libertando-o da maldição da vida
eterna. Lorenzo sente como se o seu corpo estivesse sendo perfurado. A
cada grito, Lorenzo força mais e mais a estaca no coração do filho.
Implorava para que os gritos cessassem. Para que o garoto morresse,
pondo um fim na dor de ambos. Golfadas de sangue mancham a camisa de um
homem em prantos. A criança parecia resistir as estocadas, transformando
aquela lamuria, aquele tormento, em segundos perenes.

- Meu filho...

Os
vampiros estavam dentro do casarão, no quarto do garoto, quando ouvem
os gritos vindos do celeiro. Os moribundos haviam acabado de descobrir o
corpo de um dos seus, morto ao lado da cama. Lorenzo o matou pelas
costas enquanto este atacava covardemente seu filho.

Enfim os
gritos cessam. Lorenzo vê seu único filho morrer pela segunda e última
vez. Ele sente naquele momento, o seu coração também morrer. Seu coração
não mais existe, assim como a sua vontade de viver.

Os vampiros
cercam o celeiro. O homem repousa a cabeça do filho lentamente no solo,
se levantando com a estaca manchada com o sangue de seu único
descendente, o seu sangue, em punho. Os mortos vivos invadem o celeiro
por todos os lados, dezenas deles. Em segundos, cercam um homem imerso
no âmago da dor. Lorenzo já está morto, e pronto para reencontrar seus
tão amados, filho e esposa. Agora é só questão de tempo...

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